Lia Pinheiro Barbosa, Peter Michael Rosset

Educação do campo e pedagogia camponesa agroecológica na américa latina

Aportes da la Via Campesina e da CLOC
segunda-feira 6 de novembro de 2017 por LRAN

Somos testemunhas de uma feroz disputa territorial contemporânea entre diversas expressões do capital e de movimentos como a La Via Campesina (LVC) e a Coordinadora Latinoamericana de Organizaciones del Campo (CLOC). Nessa disputa, a agroecologia emerge como matriz produtiva e projeto político de enfrentamento do capital no campo, construída em uma perspectiva politizada e a partir de um sujeito
histórico. Neste artigo, analisamos a concepção de educação agroecológica
da LVC/CLOC em sua dimensão política e práxis pedagógica, que poderia
denominar-se Pedagogia Camponesa Agroecológica. Abordamos os temas
dos territórios em disputa e a agroecologia, e o papel teórico e político
das epistemes que emergem dessas experiências na elaboração de projetos
educativos e na práxis política.

Introdução

Nos umbrais do século XXI podemos observar o fortalecimento da práxis política dos movimentos sociais do campo na América Latina. No âmbito dos projetos políticos articulados, a educação e a agroecologia ocupam cada vez mais um lugar central no trabalho propositivo desses movimentos como elementos indispensáveis na crescente disputa territorial com o capital transnacional e as políticas de Estado, ainda vinculadas à perspectiva neoliberal.

No processo de (re)construção de territórios camponeses e indígenas, a Coordinadora Latinoamericana de Organizaciones del Campo (CLOC), representação continental dentro da La Via Campesina (LVC) 1 , tem consolidado um projeto educativo-político de formação e articulação de experiências agroecológicas locais, nacionais, regionais e continentais que se insere nesse campo de disputa dos territórios educativo-político e agroecológico.

Trata-se de experiências que estão envolvidas em processos regionais, continentais e globais na LVC e, ao mesmo tempo, são enriquecidas por eles, os quais primam por consolidar uma formação educativa em perspectiva crítica e permeada pelo intercâmbio de experiências e o Diálogo de Saberes (Tardin, 2006), tomando a agroecologia como princípio e projeto educativo-político. Em essência, representam a construção coletiva da concepção da Educação do Campo, articulada por uma base epistêmica camponesa, indígena e operária da agroecologia que abarca uma “pedagogia camponesa” própria.

No presente artigo, analisamos as contribuições das organizações da LVC/CLOC na consolidação da Educação do Campo e da Pedagogia Camponesa Agroecológica no processo de disputa do território da agroecologia na América Latina. Para tanto, recuperamos três epistemes próprias dessas organizações, as quais, por meio do Diálogo de Saberes, têm contribuído na concepção educativo-pedagógica para uma interpretação da agroecologia e a sua assunção como princípio e projeto político para a emancipação humana e a soberania alimentar.

Territórios camponeses e a agroecologia

Ao final do século XX, a política agrária latino-americana sofreu profundas mudanças estruturais, em consequência da implantação da política neoliberal na região, com o surgimento das cadeias alimentares mundiais e a “revolução verde”, que viabilizou a subordinação da agricultura aos padrões de produção definidos pelo capitalismo mundial. As empresas transnacionais impulsionaram a homogeneização da produção agrícola, consolidando a sua integração no complexo corporativo agroindustrial de base centralizada e gerando uma diversidade de situações agrárias, caracterizadas por assimetrias na assimilação das mudanças impostas por tal integração. Nesse processo de consolidação de um padrão de produção no campo, a não realização da reforma agrária desencadeou uma sistemática proletarização camponesa e provocou a emergência de uma diversidade de movimentos rurais que iniciaram uma articulação política comum na luta pela terra e pela reforma agrária (BARBOSA, 2012; FERNANDES, 2015; ROSSET & MARTÍNEZ-TORRES, 2016).

Essa mudança nos padrões de produção agrária acirrou a disputa territorial nas áreas rurais da América Latina. No enfrentamento do novo padrão produtivo, as organizações e os movimentos sociais das zonas rurais utilizam cada vez mais a agroecologia como instrumento de contestação, defesa, reconfiguração e transformação dos territórios camponeses e dos espaços rurais disputados, em um processo denominado “recampesinação” (PLOEG, 2008). Por outro lado, o capital financeiro, as corporações transnacionais e os setores privados nacionais estão reterritorializando espaços com abundantes recursos naturais em prol de megaprojetos, concessões para mineradoras, siderurgias e plantações de monocultura.


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6 de novembro de 2017
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